29.05.11

A soja é o grão mais produzido no Brasil e um dos mais produzidos mundialmente, sendo conhecida a mais de 5000 anos na China. O uso dos produtos derivados da soja na alimentação nos últimos anos, em função da alta qualidade e teor protéico destes (36% no grão de soja a 80% na proteína isolada de soja). Dentre os derivados protéicos de soja, o farelo de soja é o ingrediente mais empregado em alimentos secos completos para cães, componde entre 5% a 20% da dieta.
No Brasil, a inclusão de derivados da soja nos alimentos comerciais para cães, associado às farinha de origem animal, tem possibilitado moderação entre os níveis desejados, equilíbrio de aminoácidos e redução do teor de macrominerais, como o cálcio e magnésio, das dietas. Esse fato é importante, uma vez que, em excesso, esses minerais podem causar anomalias ósseas nos cães, principalmente nos animais de raças grandes e gigantes. Entretanto, a presença de fatores antinutricionais na soja pode limitar a inclusão desse ingrediente na alimentação de cães, sendo necessário o correto processamento da soja para remoção desses fatores. Assim, serão comentadas a seguir algumas características da soja como fonte protéica para cães.
Vantagens e Desvantagens da Soja na Alimentação de Cães
Fatores antinutricionais da soja
O grão de soja apresenta alguns fatores antinutricionais, os quais podem prejudicar o aproveitamento dos nutrientes da dieta pelos animais. Os principais fatores antinutricionais da soja são as lectinas (também conhecidas como hemaglutininas) e os inibidores de proteases. As lectinas aglutinam às células intestinais, prejudicando a absorção de nutrientes. Já, os inibidores de proteases (inibidores de tripsina e quimotripsina), se ligam às enzimas digestivas tripsina e quimotripsina, impedindo que estas atuem sobre as proteínas, prejudicando a digestão protéica e a absorção dos aminoácidos da dieta.
Apesar do efeito deletério desses fatores antinutricionais, estes são desativados durante o processamento térmico da soja, não causando mais efeitos negativos aos animais após o tratamento térmico do grão. Entretanto, a presença de compostos termoestáveis no grão de soja, como as fibras solúveis (parte da hemicelulose e pectinas) e açúcares (rafinose, estaquiose e verbascose) também podem apresentar efeitos antinutricionais aos cães.
As fibras solúveis podem aumentar a viscosidade da digesta, dificultando a ação das enzimas digestivas e a absorção dos nutrientes no intestino. Além disso, as fibras e os açúcares da soja são altamente fermentáveis no intestino, podendo resultar em flatulência e na produção de fezes em maior volume e menos consistentes pelos cães. Desse modo, as fibras são os principais limitantes da inclusão da soja na alimentação de cães, pois seus efeitos não são reduzidos pelo processamento térmico da soja. A inclusão máxima de 10% de farelo de soja em alimentos comerciais para cães adultos, geralmente não resulta em problemas de consistência fecal, dependendo da formulação da dieta.
Apesar desses efeitos adversos sobre o aproveitamento dos nutrientes da dieta e sobre as fezes dos cães, as fibras solúveis são importantes para a saúde intestinal, principalmente para cães geriátricos, obesos e diabéticos, pois diluem as calorias da dieta, auxiliam na saciedade dos animais, controlando o consumo de alimento, reduzem a taxa de absorção de glicose no intestino, reduzindo o pico glicêmico pós-prandial e evitam a constipação.
Além disso, por serem fermentáveis no intestino, as fibras e, principalmente, os açúcares (estaquiose e rafinose) da soja, podem atuar como prebióticos. Assim, promovem o desenvolvimento de microrganismos não patogênicos no intestino, como Lactobacillus spp. E Bifidobacterium, os quais inibem os patogênicos, como do gênero Clostridium spp., Escrerichia spp, Salmonella spp., entre outros. Os microrganismos patogênicos produzem compostos tóxicos, como amônia e aminas biogênicas, que além de serem prejudiciais ao intestino, causam mau odor às fezes dos cães.
Processamento da soja
Existem vários métodos de processamento térmicos da soja, sendo os principais a tostagem, extrusão e a micronização. Entretanto, é importante que o processamento da soja seja bem controlado, já que o sub ou superaquecimento podem reduzir o aproveitamento de seus nutrientes pelos animais. O sub-aquecimento da soja pode não inativar os inibidores de proteases, enquanto o superaquecimento pode resultar na formação de complexos entre a lisina e carboidratos (reação de Maillard), formação de pontes de dissulfeto e interações não-covalentes entre cadeias polipeptídicas, reduzindo a digestibilidade da proteína.
A maioria dos derivados de soja utilizados na alimentação de cães, com exceção do grão de soja tostado e da soja micronizada, apresentam baixo teor de lipídios, uma vez que estes são removidos para o consumo humano, principalmente. A remoção dos lipídios concentra a proteína da soja, resultando em derivados com maior teor protéico.
Além da remoção dos lipídios, a retirada da casca da soja, pelo descascamento do grão e das fibras solúveis, por extração destas com solução de etanol, concentra ainda mais a proteína de soja, que apresenta altos teores de proteína e baixos teores de açúcares. Ainda, a fração protéica da soja pode ser isolada, basicamente, pela solubilização da proteína em pH alcalino e posterior separação por centrifugação dos demais componentes da soja, resultado na proteína isolada de soja.
Assim o grão de soja pode resultar em diversos derivados protéicos, com características nutricionais distintas. Sendo que, quanto maior for a concentração da proteína de soja, por meio de remoção dos lipídios, fibra, amido, açúcares, entre outros nutrientes do grão, maior será o aproveitamento dos nutrientes da soja pelos cães e menor será o efeito da soja sobre as fezes desses animais.
Digestibilidade da Proteína da Soja
Como cães são animais basicamente carnívoros, o conhecimento do teor de proteína digestível de ingredientes para esses animais é de extrema importância para a formulação de alimentos balanceados para a espécie. Assim, foi realizada uma série de estudos no Laboratório de Estudos de Nutrição Canina (LENUCAN), da Universidade Federal do Paraná – UFPR, na qual foi avaliada, entre outros fatores, a digestibilidade da proteína de derivados de soja para cães.
Observa-se que todos os derivados de soja apresentam alta digestibilidade da proteína (de 84,7% a 98,8%) por cães. Portanto, ao contrário do pré-conceituado por muitos, a proteína da soja, quando bem processada (inativação dos fatores antinutricionais termolábeis e redução das fibras e açúcares) são bem digeridas por cães, inclusive podendo ser mais digerível que farinhas de origem animal.
Qualidade das fezes
Embora a proteína da soja seja bem aproveitada por cães, como comentado anteriormente, a presença de fibras e açúcares na soja pode resultar na produção de fezes em maior volume e menos consistentes pelos cães. Entretanto, a remoção desses carboidratos da soja, como para a produção de proteína isolada de soja, reduz os efeitos deletérios da inclusão de soja na dieta sobre as fezes dos cães. Observa-se que apenas os cães alimentados com as dietas contendo proteína isolada de soja e farinha de vísceras de aves produziram fezes menos úmidas e mais consistentes.
Observa-se ainda que, apenas a remoção da casca do grão de soja (grande quantidade de fibra), como para a produção de farelo de soja 48%, farinha desengordurada de soja, soja micronizada e concentrado protéico de soja, não é suficiente para melhoria da consistência das fezes dos cães. Isso ocorre porque grande parte das fibras solúveis e açúcares fermentáveis da soja se encontram principalmente no interior do grão, enquanto a casca é composta principalmente por fibras insolúveis. As fibras insolúveis, embora aumentem o bolo fecal, não reduzem a consistência das fezes como às fibras solúveis fermentáveis. Por isso, apenas o isolamento da fração protéica da soja tem demonstrado ser eficaz para melhoria das fezes dos cães em dietas com alta inclusão de soja (mais que 10%).
Embora a maioria dos derivados de soja resulte na produção de fezes menos consistentes pelos cães, com comentado anteriormente, a presença de fibras solúveis e açúcares (principalmente estaquiose e rafinose) podem apresentar efeito prebiótico no intestino dos cães. Como constatado pela redução no pH e no teor de amônia das fezes de cães alimentados com derivados protéicos de soja, em relação à dieta contendo farinha de vísceras de aves.
A redução no pH fecal se deve, principalmente, à fermentação dos carboidratos da soja por microrganismos lácticos no intestino grosso dos cães, resultando na produção de ácido láctico e ácidos graxos de cadeia curta, os quais reduzem o pH intestinal, inibindo o desenvolvimento de microrganismos patogênicos proteolíticos. Os microrganismos proteolíticos, como do gênero Clostridium spp., fermentam a fração protéica não digerida que chega no intestino grosso, resultando na produção de amônia, aminas biogênicas, entre outros compostos tóxicos, responsáveis pelo mau odor das fezes dos cães.
Conclusões
A soja é uma fonte protéica de alta qualidade para cães, desde que bem processada e aliada à outras fontes protéicas para complementar os níveis de aminoácidos essenciais da dieta. A remoção das fibras e açúcares da soja permite maior aproveitamento da proteína e aumenta a consistência das fezes dos cães. Entretanto, apesar do efeito adverso das fibras da soja sobre a consistência fecal, estas podem apresentar efeitos funcionais no organismo, como contribuir com a saúde intestinal. Desse modo, segundo a finalidade da dieta, pode se utilizar diferentes derivados da soja, com características nutricionais e custos distintos, como importantes aliados à nutrição ótima de cães.
Ananda Portella Félix, Cleusa Bernardete Marcon de Brito, Carolina Pedro Zanatta, Laís Guimarães Alarça, Simone Gisele de Oliveira, Alex Maiorka.
Texto retirado da revista Pet Food Brasil, ano 3, Edição 13, Mar – Abr 2011, p 60 – 65.
22.07.11
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